Maya já tinha sido produtora de abacaxi. Ela sabia distinguir os cheiros. Fome, sono, gases, medo. Era um porco.
Foi uma agonia.
Ela lembrou como, duas semanas atrás, Victoria e Ricardo Valdivia apresentaram o bebê como quem apresenta um troféu: fotos perfeitas, balões, mensagens de “bênção”.
Três enfermeiras vieram alguns dias depois, dizendo que o bebê era impossível, que era “cólica”. O pediatra da família apareceu duas vezes, deu uma olhada rápida e deu de ombros.
“Solte meu filho”, ordenou Victoria, com a voz gélida.
Maya apertou o bebê com mais força.
—Senhora, o colchão… está cheio de larvas. Está podre. Ele tem estado—
—Eu te disse para largar isso.
“Está coberto de mordidas!” A voz de Maya falhou, não de medo, mas de raiva. “Como ele não percebeu?”
Victoria caminhou em direção à xícara com passos controlados, como se fosse esconder uma mancha antes mesmo de vê-la.
—Esse é um colchão orgânico. Hipoalergênico. Custou—
Maya moveu-se e apontou para o canto exposto, enquanto as larvas continuavam a causar danos.
—Olhe para ele. Veja em que seu filho tem dormido.
Por um segundo, a máscara de Victoria se quebrou. Algo passou pelos seus olhos: culpa, nojo, vergonha.
Mas foi por um segundo.
Então a aspereza retornou.
—Isso… isso é impossível.
—Quando você comprou? —Maya perguntou, baixando a voz, porque a verdade era que ela estava à beira de um ataque de nervos. —Quando?
Victoria não respondeu. E esse silêncio foi uma resposta completa.
Maya se lembrou de conversas que ouviu enquanto limpava: Victoria reclamando do preço do quarto do bebê. Ricardo respondendo com irritação, dizendo que precisavam “cortar custos”. A tensão pairava no ar, mesmo com o cheiro de cedro por toda parte.
—Eles não compraram novo — disse Maya lentamente. — Eles trouxeram usado.
Victoria abriu a boca para bater… mas então a porta atrás dela se abriu e Ricardo apareceu.
“O que está acontecendo?”, disse ele com a voz rouca, enquanto amarrava o cós do seu robe. “Por que ele está gritando?”
Ele viu a xícara destampada. Ele viu o colchão.
E a expressão no rosto dela mudou. Não de surpresa, mas daquele terror irritado de quem vê que seu segredo foi revelado.
—O que você fez? —ele perguntou a Victoria de repente, sem perceber que tinha falado em voz alta.
Maya olhou para ele.
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