O choro do bebê ecoava pelos corredores de mármore como se a própria casa estivesse chorando.
Eram três da manhã na mansão Valdivia, em Lomas de Chapultepec, e o grito não parecia uma birra ou fome. Parecia… dor. Um grito cru e desesperado, como se algo invisível estivesse lhe corroendo a vida.

Maya Salgado apoiou a palma da mão na porta do quarto do bebê. Seu vestido preto ainda estava impecável apesar da hora, o avental branco amarrado com um laço perfeito.
Ela trabalhara ali como ourives havia vinte e nove anos e seis meses. Nesse tempo, vira de tudo: louças que valiam milhares de pesos, conversas silenciosas com sorrisos elegantes, visitas que exalavam perfumes caros e mentiras. Mas nunca ouvira um grito como aquele.
—Maya! —A voz de Victoria Valdivia ecoou pelo corredor.
“Por que você ainda está chorando?”, disse ela, sem nem olhar para a xícara. “Eu é que deveria estar segurando-a.”
—Senhora… Eu já tentei de tudo — respondeu Maya, cautelosamente.
Victoria soltou uma risada seca.
—Eu não te pago para “pular”. Eu te pago para resolver o problema. Meu marido tem um problemão daqui a quatro horas. Faça ele calar a boca.
E ela se virou, deixando um rastro de perfume e desejo.
Maya entrou no quarto do bebê com a barriga saliente. Sati, de três semanas, se contorcia em seu recipiente dourado, o rostinho roxo pelo esforço, o corpinho nu batendo nos lençóis brancos como se quisesse escapar deles.
O monitor inteligente exibia números perfeitos. A temperatura estava ideal. Tudo parecia… impecável.
Étopes Maya viu algo que ele tinha visto antes.
Marcas vermelhas nas costas. Pequenas erupções cutâneas, semelhantes a picadas.
—Shhh… Estou aqui, meu amor — sussurrou ela, erguendo-o com uma delicadeza que parecia uma súplica.— Estou aqui.
Mas Sati não se acalmou. Pelo contrário: agarrou-se com os dedinhos ao tecido do pássaro e chorou mais alto, como se o contato o lembrasse de que ainda estava vivo.
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