“Chegou o pedinte oficial da família”, anunciou minha tia Letícia assim que entrei na sala de estar de sua casa no bairro de Iztapalapa, na Cidade do México. “Guardem as carteiras.”

“Chegou o pedinte oficial da família”, anunciou minha tia Letícia assim que entrei na sala de estar de sua casa no bairro de Iztapalapa, na Cidade do México. “Guardem as carteiras.”

Minha mãe, por outro lado, trabalhava limpando casas em Polanco e cuidando de idosos em Roma. Quando algo quebrava em casa, meu pai ficava olhando fixamente para o teto por semanas, como se pudesse consertar com os olhos.

Muitas vezes ouvi, vindo do corredor, minha mãe pedindo à minha tia “só um pouquinho” de ajuda.

E minha tia suspirou:

“Irmã, você não sabe administrar dinheiro. Se a menina estudasse algo que desse renda, vocês não teriam mais esses problemas.”

A garota era eu.

E eu estudei.

Estudei contabilidade na UNAM. Depois, fiz mestrado em finanças. Trabalhei em uma grande empresa em Santa Fé, fazia horas extras e atendia clientes freelancers nos fins de semana. Quando juntei dinheiro suficiente, abri meu próprio escritório de contabilidade.

Não foi fácil. Mas nunca mais pedi um centavo à minha família. Nunca.

Há pouco mais de um ano, meu primo Mauricio me ligou  . Ele pediu para nos encontrarmos em uma cafeteria perto do  Centro Histórico . Ele chegou usando um relógio novo e carregando as chaves de um carro zero quilômetro.

“Primo, tenho um projeto”, disse ele, mostrando-me os slides em seu laptop. “Um bar sofisticado no bairro de Del Valle. Algo exclusivo. O banco não entende minha visão.”

Ele precisava de  1.200.000 pesos  para concluir o investimento.

Eu tinha acabado de encerrar um ano excelente e tinha dinheiro em caixa. Não queria misturar família e negócios, mas ele insistiu:

—Eu te pago juros, é tudo legal. Você elabora o contrato. Assim você fica protegido. E ninguém pode dizer que você nunca investe em nada.

Aceitei. Não por causa dele. Por causa dos números.

Havia garantias: o carro estava em seu nome, alguns móveis da loja, cláusulas claras. Ele assinou sem ler muito. Confiava que “tudo poderia ser resolvido em família”.

O que eu jamais imaginei foi que, ao mencionar que tinha meu próprio escritório, minha tia Letícia distorceria a história. Ela começou a dizer que o Maurício “me colocou em um negócio” para me ajudar, que ele era o empreendedor e eu pouco mais que sua gerente agradecida.

Não corrigi. Achei que o tempo colocaria tudo em seu devido lugar.

Mas o tempo apenas trouxe aquele almoço de domingo… seu escárnio… e a ligação do contador rompendo o silêncio como um golpe de facão.

—Valéria, você ainda está aí? — perguntou o advogado Herrera.

Engoli em seco.

—Sim. Aqui estou.

Olhei para Mauricio. Ele estava pálido. Não sorria mais. Apertava o guardanapo entre os dedos. Minha tia alternava o olhar entre ele e eu, como se tentasse decifrar o que se passava por trás daquela cena.

Ele não só teve que decidir sobre o empréstimo.

Eu precisava decidir qual lugar ocuparia naquela mesa dali em diante.

Respirei fundo.

—Senhor… ainda não lhe dei minha resposta.

Todos os olhares estavam voltados para mim.

—Coloque a chamada no viva-voz— acrescentei.

Coloquei o telefone no meio da mesa, ao lado do prato de carnitas e da salada intocada.

—Vou repetir a pergunta— disse o contador calmamente. —Devemos iniciar um processo formal de cobrança contra o Sr. Mauricio Ramírez López, ou o senhor lhe concederia mais tempo?

Maurício pigarreou.

—Valéria, foi um mal-entendido… Eu pensei que…

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