Dei um passo para trás e olhei para Mateo, meu irmão. Seus olhos estavam marejados.
“Pensei que você não viria”, disse ele.
“Eu também”, admiti. “Mas hoje é o seu dia. Eu não queria que ele passasse sem que você soubesse de algo.”
-Que coisa?
Olhei-o diretamente nos olhos.
—Que eu ainda sou sua irmã. Mesmo que tenham tentado me apagar da história.
Mateo engoliu em seco e assentiu com uma firmeza silenciosa.
-Obrigado.
O padre começou a pedir a todos que se sentassem. Mudei-me para um banco lateral, longe da seção “família”, onde sabiam que me colocariam como um enfeite. Preferi escolher meu próprio lugar.
E ali, conforme a cerimônia prosseguia, eu via Valeria me lançando olhares constantemente. Vi Diego incapaz de se concentrar. Vi meu pai, pela primeira vez, parecer desconfortável em um lugar onde ele sempre estivera no comando.
Porque eu estava lá.
E eu deixei de ser negociável.
Ao término da cerimônia, as pessoas saíram para o jardim do salão. Música, bebidas, felicitações. Tomei um copo d’água com limão e fiquei um instante na sombra, observando.
Não demorou muito.
Diego foi o primeiro a se aproximar, como uma criança que acredita que pode resolver tudo com um sorriso.
—Camila…
Sua voz tinha o mesmo tom que eu me lembrava. Só que agora eu a ouvia sem a magia.
-Não.
Uma palavra. Basta.
Ele piscou, confuso.
—Eu… eu só queria te dizer que… sinto muito. Foi um momento difícil. Seu pai…
“Não use isso como desculpa”, interrompi gentilmente. “Você concordou. Você escolheu.”
Seus olhos se voltaram para o chão.
—Eu pensei que… era para o melhor.
“Para você”, corrigi. “Sempre foi para você.”
Atrás dele, Valéria apareceu. Seu queixo estava erguido, mas seus dedos tremiam ao redor do copo.
“Vocês vieram aqui para… o quê? Para nos humilhar?”, perguntou ela, e sua voz tinha aquela mistura de orgulho e medo que finalmente a tornava humana.
Olhei para ela de cima a baixo, sem ódio.
—Eu não vim por você.
Ela franziu a testa.
—Então, por que você está aqui?
Respirei fundo. E disse a mais simples das verdades:
—Porque durante três anos, você contou uma história em que eu era a fraca, a que ficou para trás. E eu não quero mais ser apenas um boato na minha própria vida.
Valéria abriu a boca, mas não conseguiu encontrar um argumento.
Nesse momento, meu pai se aproximou.
Sua presença era como uma sombra fria, mesmo sob o sol.
“Camila”, disse ela com uma calma ensaiada. “Você está causando um escândalo.”
Eu sorri levemente.
—Não, pai. Você causou um escândalo quando decidiu pagar pelo meu abandono.
Seu semblante endureceu.
—Isso é um assunto de família.
“Eu também era da família quando você fez isso”, respondi, sem elevar a voz. “Mas para você, eu era um problema que precisava ser realocado.”
Valeria olhou para meu pai, confusa.
“Pagar?” ela sussurrou. “O que você está dizendo?”
Meu pai lançou-lhe um olhar que era uma ordem silenciosa. Ela permaneceu imóvel, mas era tarde demais: a verdade havia tocado o ar, e o ar não podia mais retornar ao frasco.
Diego deu um passo para trás, empalidecendo novamente.
—Valéria, eu…
“Você sabia?” Valéria olhou para ele, e sua voz falhou.
Diego não respondeu. Não era necessário.
Valéria se virou para meu pai, com os olhos cheios de algo que eu nunca tinha visto nele antes: traição.
—Você… planejou isso? Você me usou?
Meu pai cerrou os dentes.
—Fiz o que era necessário.
Aquela frase, aquela frieza, era como um espelho. Valeria permaneceu imóvel, como se pela primeira vez se visse dentro do sistema que sempre a beneficiara… e descobrisse que ela também era uma engrenagem nele.
Assisti a tudo sem gostar. Não foi vingança. Foi uma consequência.
Minha mãe apareceu de repente ao lado de Mateo. Ela veio rapidamente, alarmada com a atmosfera tensa.
-O que está acontecendo?
Mateo olhou para meu pai, depois para Diego, depois para Valeria. E finalmente olhou para mim.
“Já chega”, disse ele.
E essa foi a surpresa do dia.
Meu irmão — o filho, o herdeiro, aquele que sempre se equilibrou entre os desejos do meu pai — deu um passo à frente.
“Pai, como você pôde?”, perguntou ele, e sua voz não tremeu.
Meu pai se virou, furioso.
—Não se meta nisso.
“É o meu casamento”, disse Mateo. “E ela é minha irmã. Se vocês vão tratá-la como mercadoria, não façam isso aqui.”
Havia um murmúrio ao nosso redor. Alguns olhares se desviaram, outros se fixaram em nós com uma curiosidade cruel.
Meu pai, pela primeira vez, pareceu perder o controle de sua imagem.
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