Ela estendeu a mão para o berço. Seus dedos, adornados com pesados anéis de ouro, moveram-se em direção a Leo.
“Eu levo ele agora”, disse ela com naturalidade. “A Karen está esperando no carro. É melhor fazer isso rápido, como arrancar um Band-Aid. Você ainda fica com o bebê. Luna, né? Meninas são mais fáceis mesmo. Você pode vesti-la.”
Capítulo 3: O tapa e o botão
“Tire as mãos do meu filho!” gritei.
O tom estridente da minha voz a assustou. Lancei-me para a frente e agarrei seu pulso no exato momento em que ela levantou Leo do colchão. O movimento repentino provocou uma dor aguda na minha barriga que quase me fez desmaiar.
“Solta ele!” gritei, cravando minhas unhas em seu braço.
A Sra. Sterling gritou: “Sua louca! Você me arranhou!”
Com a mão livre — a que não estava segurando meu recém-nascido chorando —, ele bateu.
PAM!
A palma da mão dele atingiu minha bochecha com força. Minha cabeça caiu para trás contra os travesseiros. O quarto girou. O gosto de cobre invadiu minha boca onde eu havia mordido a língua.
“Sua pirralha insolente!” ela rugiu, com o rosto contorcido e feio. “Eu sou a avó dela! Eu tenho o direito de decidir para onde ela vai! Você não passa de uma incubadora! Deveria ser grata por deixarmos você ficar com uma!”
Ela puxou Leo com mais força. Ele gritava agora, um grito agudo e aterrorizado que partiu meu coração. Os tubos do soro conectados ao meu braço apertaram, ameaçando romper minha veia.
“Socorro!” Tentei gritar, mas minha voz falhou.
A Sra. Sterling era forte. Ela já tinha tirado metade do Leo do berço. Ela estava mesmo a fazer aquilo. Estava a sequestrar o meu filho em plena luz do dia, movida pela ilusão de que a sua vontade era lei.
“Você não vai me impedir”, ela ofegou, lutando com os cobertores emaranhados. “Vou chamar a polícia e dizer que você me atacou!”
Eu não chorei. Eu não implorei. A parte de mim que era Elena, a esposa, morreu naquele instante. A parte de mim que era a Honorável Elena Vance, Juíza Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Sul, assumiu o controle.
Estendi a mão para o painel atrás da minha cabeça. Havia um botão padrão de chamada de enfermagem e, ao lado, um botão vermelho com a inscrição CÓDIGO CINZA/SEGURANÇA. Era um botão reservado para ameaças à equipe ou aos pacientes.
Apertei o botão vermelho com força e o mantive pressionado.
Um alarme agudo e rítmico começou a soar. As luzes do corredor piscaram. Era o som de uma fechadura de segurança de prisão.
“O que você está fazendo?” A Sra. Sterling entrou em pânico. Ela olhou para as luzes piscando e depois para mim. “Desligue isso! Você vai acordar o hospital inteiro!”
“Vou chamar a polícia”, eu disse, com uma calma gélida apesar do sangue pulsando nas minhas orelhas. “Deixem meu filho em paz. Agora.”
“Você não se atreveria”, sibilou ele. “Mark vai te matar se você nos envergonhar desse jeito!”
“Deixe isso para lá. Agora.”
Ele hesitou. Por um segundo, pensei que fosse jogá-lo. Mas o som de botas pesadas ecoando pelo corredor quebrou sua resistência. Ele colocou Leo de volta no berço — com brutalidade, fazendo-o chorar ainda mais — e deu um passo para trás, alisando seu casaco de pele.
“Tudo bem”, ele cuspiu as palavras. “Vou dizer que você me atacou. Olha o meu braço! Você me arranhou! Eles vão prender você, e aí eu levo vocês dois porque vocês vão acabar na cadeia.”
A porta se abriu de repente.
Quatro seguranças corpulentos entraram correndo, seguidos pela enfermeira responsável. Estavam ofegantes, com as armas de choque em punho, à espera de um invasor violento.
“Código cinza! Todos fiquem onde estão!” gritou o chefe da guarda.
A Sra. Sterling apontou imediatamente para mim com um dedo trêmulo. Lágrimas brotaram instantaneamente em seus olhos. Foi uma atuação digna de Oscar.
“Socorro! Por favor!” ela gemeu. “Minha nora… ela perdeu a cabeça! Ela está com psicose pós-parto! Ela tentou sufocar o bebê! Eu tentei impedi-la e ela me atacou. Olha o meu braço!”
Capítulo 4: “Olá, Meritíssimo”
Os guardas olharam para mim. Eu estava pálida, sangrando no local onde o acesso intravenoso havia sido retirado, segurando a bochecha onde uma marca vermelha começava a aparecer. Então, eles olharam para a mulher mais velha com o casaco de pele, que chorava dramaticamente.
“Senhora, afaste-se da cama”, ordenou-me o chefe dos guardas, com a mão na fronha.
“Ela é perigosa!” soluçou a Sra. Sterling. “Levem-na embora! Salvem meus netos!”
Eu não me mexi. Eu não gritei. Eu não entrei no jogo. Simplesmente apontei o dedo para o canto superior da sala.
“A câmera de segurança está ativa, certo, Chefe Mike?” perguntei, em tom claro.
O chefe da segurança, um homem corpulento chamado Mike, com quem eu havia conversado ontem sobre os protocolos de segurança para pacientes importantes, congelou. Ele apertou os olhos enquanto me olhava. A adrenalina da entrada o havia cegado por um segundo, mas agora ele realmente me encarava.
Ele viu o rosto que vira no noticiário durante o julgamento do caso RICO no mês passado. Viu a mulher cujo nível de segurança era superior ao do administrador do hospital.
O rosto de Mike empalideceu. Ele imediatamente afastou a mão da arma de choque. Arrancou o boné da cabeça.
“Juiz Vance?”, disse ele, baixando a voz para um tom respeitoso, quase sussurrado.
A Sra. Sterling parou de fingir que chorava no meio do soluço. Ela piscou. “Juiz? Quem você está chamando de juiz? Essa é a Elena. Ela está desempregada. Ela não é ninguém.”
Mike a ignorou. Deu um passo à frente, sinalizando para que seus homens baixassem as armas. “Vossa Excelência… o senhor está bem? Recebemos o sinal de pânico. Esta mulher está lhe incomodando?”
“Não, eu não estou bem, Mike”, eu disse, apontando para a Sra. Sterling. “Essa mulher acabou de me agredir. Ela me deu um soco no rosto. Ela tentou sequestrar meu filho, Leo. E agora ela está fazendo declarações falsas para os policiais.”
Mike virou-se lentamente para encarar a Sra. Sterling. Seu semblante mudou de guarda confuso para executor intimidador.
“Juíza?” gaguejou a Sra. Sterling, olhando entre nós. “O que está acontecendo? Por que a chamam assim? Ela fica em casa o dia todo! Assiste à TV! Não tem emprego!”
“Estou falando da mulher que você acabou de agredir”, disse Mike friamente. “A Meritíssima Elena Vance, Juíza Distrital dos EUA para o Distrito Sul. Você acabou de dar um tapa em uma funcionária federal dentro de uma instalação de segurança máxima.”
A boca da Sra. Sterling abria e fechava como a de um peixe. “Não… isso é impossível. Mark disse… Mark disse que ela era consultora… uma profissional autônoma…”
“Isso se chama manter um perfil discreto por motivos de segurança, senhora”, eu disse, limpando um vestígio de sangue do meu lábio. “Meu trabalho envolve sentenciar traficantes de drogas e terroristas. Eu não saio por aí anunciando isso para pessoas em quem não confio. E, ao que parece, meu instinto estava certo em não confiar na senhora.”
“Mas… mas…” A Sra. Sterling recuou até encostar na parede. “Você não pode ser juíza! Você não usa terno! Você não ganha dinheiro!”
“Eu trabalho remotamente quando tenho uma gravidez de alto risco”, eu disse. “E minha ‘consultoria’ envolve revisar recursos que determinam o destino de pessoas muito mais inteligentes e perigosas do que você. Quanto ao dinheiro, Sra. Sterling, meu salário paga a hipoteca que você acha que Mark está pagando.”
Olhei para Mike. “Algeme-a. Quero prestar queixa por agressão, tentativa de sequestro e por colocar uma criança em perigo. Quero-a fora desta sala imediatamente.”
“Com prazer, Meritíssimo”, disse Mike.
Ele deu um passo à frente e tirou do bolso algumas abraçadeiras de plástico.
“Não! Ele não pode me tocar! Meu filho é advogado!” gritou a Sra. Sterling quando Mike agarrou seus pulsos.
“Seu filho lida com casos de trânsito nos subúrbios”, eu disse calmamente. “Eu presido um tribunal federal. Acho que conheço a lei um pouco melhor do que ele.”
Capítulo 5: O Veredicto
Enquanto Mike arrastava a Sra. Sterling, que gritava, em direção à porta, Mark entrou correndo. Estava sem fôlego, com a gravata torta, como um homem que tivesse fugido correndo do estacionamento.
“Mãe? Elena?” Ele parou, observando a cena. Sua mãe estava algemada. Sua esposa o encarava com olhos tão frios que poderiam congelar o inferno.
“Mark! Diga a eles!” gritou a Sra. Sterling, lutando contra Mike. “Diga para me soltarem! Ela está mentindo! Ela é louca! Ela diz que é juíza!”
Mark olhou para mim. “Elena, querida… o que está acontecendo? Por que a mamãe foi presa? Vocês duas brigaram?”
“Ela tentou levar o Leo embora, Mark”, eu disse. “Ela disse que você concordou em entregá-lo à Karen. Ela me deu um tapa.”
Leave a Comment