Claro. Uma entrada triunfal importava mais do que acompanhar a esposa no aniversário dela.
Pedi um Uber, sem coragem de dirigir, e observei a cidade passar diante dos nossos olhos, iluminada por feixes de luz, enquanto nos aproximávamos do Château Blanc. O motorista me olhou pelo retrovisor.
“Uma ótima noite?”, perguntou ele.
“Meu jantar de aniversário.”
“Feliz aniversário”, disse ela gentilmente. “Seu marido deve ter planejado algo especial.”
Eu sorri, com uma expressão tão frágil quanto vidro. “Algo assim.”
O Château Blanc erguia-se na esquina como um santuário para um mundo que jamais me reivindicaria. Os manobristas, mais bem vestidos do que a maioria dos homens que eu conhecia, abriam as portas dos carros para as mulheres que se moviam como se a calçada existisse apenas para elas.
Henri, o maître, me cumprimentou com aquela expressão polida e distante reservada para convidados que estão ali por associação, não por associação. “Sra. Mitchell. Seu grupo já começou a chegar. Por aqui, por favor.”
A sala de jantar privativa fervilhava de risos e do tilintar agudo de taças de cristal. Marcus Sterling era o centro das atenções, contando animadamente a história de um cliente que ousou pechinchar sobre seus honorários. Jennifer Cross, reclinada em um sofá de veludo, documentava a noite para seus 40 mil seguidores. Patricia Rothschild presidia o bar, seus diamantes brilhando sob as luzes como ameaças silenciosas.
“Aí está ela!” gritou Marcus num tom exageradamente jovial. “Nossa aniversariante chegou.”
Todos os olhares se voltaram para mim. Dezessete pares de olhos me analisaram num único relance. O vestido vermelho foi um erro de cálculo. Os brincos de esmeralda, insignificantes. E eu, claramente apenas um acessório até Travis fazer sua entrada com algo mais impressionante.
Henri me acompanhou até minha cadeira na mesa comprida; não até a cabeceira, onde um convidado de honra se sentaria, nem ao lado do lugar visivelmente vazio reservado para Travis, mas três lugares adiante. A acompanhante de Bradley Chen, cujo nome ninguém mencionou, sentou-se de um lado; do outro, uma assistente que mal levantou os olhos do celular.
Amber Lawson sentou-se à minha frente. Ela ajustou o decote com precisão calculada, com um sorriso penetrante e perspicaz no rosto. O perfume que usava era inconfundível: o mesmo perfume francês que impregnara a jaqueta de Travis. Provavelmente custava mais do que a prestação mensal do meu carro.
“O Travis me pediu para supervisionar tudo para a sua grande noite”, disse ela com entusiasmo, projetando a voz. “Ele é sempre tão atencioso. Ele sempre pensa nos outros.”
Chegou o primeiro prato: ostras sobre gelo picado, parecendo lápides delicadas. Marcus, já um pouco tonto depois de vários martinis, ergueu o copo.
“Antes de Travis se juntar a nós, acho que todos podemos concordar”, começou ele, balançando levemente, “Savannah, você é a prova de que Travis é o homem mais generoso entre nós.”
Risadas altas e contagiantes ecoaram pela mesa.
Patricia inclinou-se para a frente. “Falando em generosidade, Savannah, você deveria se juntar ao nosso comitê de filantropia. Precisamos de alguém que entenda como vive a outra metade da população, para sermos autênticos.”
“Professores são basicamente babás de luxo, né?”, acrescentou Marcus, fazendo um gesto casual com a bebida. “Sem ofensa, Savannah, mas o que você faz o dia todo? Fica de olho em quem come cola?”
“Ensine o alfabeto”, interrompeu William Rothschild ironicamente. “Suponho que seja um trabalho importante. Alguém tem que cuidar disso.”
“Talvez o Travis pudesse incluir o salário dele como dedução de doações”, ponderou Patricia, em tom de brincadeira. “Seria válido, Bradley? Você é o especialista em impostos.”
Bradley ergueu os olhos do celular apenas o suficiente para sorrir. “Só se isso contar como dependente.”
Cada comentário era preciso como uma cirurgia. Não era espontâneo; era ensaiado. Talvez eu não fosse o alvo principal, mas era eu quem estava sentado ali esta noite. Havia um ritmo em suas zombarias, um ar de esporte coletivo, e a cadeira vazia de Travis anunciava o início da caçada.
Quando ele finalmente apareceu — quarenta minutos atrasado, com cheiro de uísque e um perfume familiar — a sala irrompeu em aplausos. Ele não olhou nos meus olhos. Não reconheceu a ocasião. Em vez disso, começou um resumo dramático de uma reunião com um cliente que supostamente havia se estendido, um negócio que iria enriquecer todos os presentes.
“Peço desculpas pela demora”, anunciou ele em voz alta. “Vocês sabem como é quando há muito dinheiro envolvido.”
Ele sentou-se na cabeceira da mesa e Amber imediatamente se inclinou para murmurar algo que o fez rir.
Eu fiquei ali sentada, invisível na minha própria comemoração, observando meu marido flertar abertamente enquanto seus amigos retomavam o show.
Os pratos principais chegaram: bifes com preços exorbitantes. O olhar de Travis finalmente recaiu sobre mim, demorando-se no vestido vermelho com uma irritação mal disfarçada.
—Que decisão ousada, Savannah. Pensei que tivéssemos concordado com algo mais apropriado.
“É meu aniversário”, eu disse baixinho. “Queria usar algo que me representasse.”
“Esse é exatamente o problema”, respondeu ele, em voz alta o suficiente para que todos à mesa ouvissem. “Você sempre se concentra em ser você mesmo em vez de melhorar.”
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até os garçons pareceram hesitar. Patrícia tentou rir, mas não conseguiu.
Travis prosseguiu, mais confiante. “Você sabe o quão exaustivo isso é? Explicar por que minha esposa compra em lojas de desconto, por que ela insiste em manter um emprego que paga menos do que nosso orçamento para vinho, por que ela não entende normas sociais básicas.”
Meus dedos roçaram os brincos da minha avó, o que me acalmou. “Se sou um fardo tão grande”, perguntei serenamente, “por que você se casou comigo?”
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