“Eles estão se mudando”, disse ela, num tom casual, como quem anuncia a entrega de móveis. “Mamãe e papai. Em tempo integral.”
Senti como se todo o oxigênio tivesse sido arrancado do meu peito.
Encarei-o fixamente, certa de que havia entendido errado.
“O quê?” sussurrei.
Linda inclinou a cabeça, adotando aquela doçura artificial que aperfeiçoara ao longo dos anos. “Não podemos deixar a família sozinha, querida. Você não gostaria de ser egoísta, gostaria?”
Egoísta. A mesma acusação que ele me lançava sempre que eu pedia limites, sempre que eu implorava para que Justin priorizasse nosso casamento em vez de ceder ao seu controle.
Justin se aproximou, baixando a voz até que soasse menos como uma conversa e mais como uma advertência dirigida exclusivamente a mim.
“Se você não gostar”, disse ela, “simplesmente nos divorciaremos.”
Então veio a frase que me gelou o sangue.
“Você vai perder a casa.”
O sorriso de Linda se tornou mais afiado, adquirindo um tom predatório.
Olhei para um e depois para o outro, meu pulso batendo tão forte que eu podia ouvi-lo nos meus ouvidos. As lembranças me invadiram: a voz estridente de Linda todas as manhãs, o jeito como Justin sempre afirmava ser “neutro”, o jeito como minha própria vida lentamente deixou de me pertencer.
E agora queriam levar essa miséria para o único lugar que ela havia comprado para escapar.
“Não”, eu disse baixinho, mas a palavra tinha peso. “Eu não quero morar com você, Linda.”
Linda piscou com aquele olhar lento e condescendente que os professores usam quando um aluno ultrapassa os limites. Então, abriu a bolsa e tirou os papéis do divórcio.
Já estava assinado. A assinatura de Justin estava lá, clara e definitiva, como uma velha ferida aberta.
Ela os trouxe consigo para minha nova casa, como se esse confronto tivesse sido programado, planejado, ensaiado.
Linda deslizou os documentos pelo balcão e tocou a linha da assinatura com o dedo de unhas perfeitamente feitas.
“Se você realmente vai dificultar as coisas”, disse ele, “assine”.
O quarto inclinou-se.
Olhei para Justin, implorando silenciosamente que ele interviesse. Que dissesse: “Mãe, pare. Esta é minha esposa. Esta é a nossa casa.”
Ele não fez isso.
Ele nem sequer pareceu constrangido.
Ele parecia irritado.
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