—“Eu estava protegendo o império”, disse Mariana com amargura. “Eu era uma estagiária sem um sobrenome importante. A garota que fazia turnos duplos. Eu não era ‘material’ para os Salgados.”
Diego engoliu em seco, como se estivesse queimando-o.
—Você era a única coisa real que eu tinha.
Eles permaneceram ali, ouvindo a música que entrava de dentro como uma zombaria romântica.
“Quero saber tudo”, disse Diego sem rodeios. “E depois quero fazer algo certo. Por ela.”
Mariana respirou fundo.
—Renata não sabe que você é o pai dela.
Diego fechou os olhos por um segundo, como se a palavra “pai” o tivesse atingido em cheio no peito.
—Diga-me como fazemos isso. Eu a seguirei. Mas Mariana… não vou esperar mais sete anos.
Naquela noite, Raquel reservou para elas uma suíte com dois quartos. Renata adormeceu em minutos. Mariana sentou-se na varanda, olhando para o mar escuro, com o coração apertado. Seu celular vibrou.
É o Diego. A Raquel me deu seu número. Não vou pressioná-lo… mas, por favor, não fuja de novo. Vamos resolver isso pelo bem da Renata.
Mariana demorou um pouco para responder, como alguém caminhando sobre gelo fino.
Eu não vou fugir. Você tem razão. Chegou a hora. Para ela.
Na manhã seguinte, Diego bateu à porta com um carrinho de café da manhã, parecendo desajeitado como alguém que não sabe se merece estar ali.
Renata apareceu com os cabelos despenteados e olhos brilhantes.
—Batatas quentes?
Diego sorriu, com uma ternura que o traía.
—Encomendei tudo. Só por precaução.
Tomaram o café da manhã na pequena varanda. Renata falou sobre sua escola, seu peixinho dourado “Chispa” e como vestidos sem bolsos “são uma armadilha”. Diego riu, e Mariana observou enquanto ele memorizava cada gesto, como se quisesse reviver anos com o olhar.
Quando Renata foi assistir desenhos animados, Diego olhou para Mariana seriamente.
—Não quero tirar isso de você. Quero estar presente. Em tudo. Nas histórias, nas tarefas, nas festas… em tudo.
—Nós moramos em Guadalajara — disse Mariana. — Vocês vivem em outro mundo.
“Então eu me mudo”, disse ele, simples e firmemente. “A empresa pode se mudar. Eu… eu não quero mais uma vida vazia.”
Mariana ficou sem palavras.
“Vamos devagar”, implorou ela, com medo genuíno. “Muito devagar.”
“Como quiser”, concordou Diego. “Mas não feche a porta na minha cara de novo.”
Naquela tarde, no jardim do hotel, Mariana estava sentada com Renata num banco. Diego aproximou-se lentamente, como se tivesse medo de quebrar alguma coisa.
—Renata… posso te contar um segredo?
Ela olhou para ele, curiosa.
—Gosta de super-heróis?
“Como família”, disse Diego, engolindo em seco. “Conheci sua mãe há muito tempo. E… não sou apenas um amigo.”
Renata franziu a testa.
—Então, o que você é?
Diego ajoelhou-se.
—Eu sou seu pai.
Renata olhou fixamente para ele, como se sua mente estivesse procurando um lugar para encaixar aquela palavra. Então, ela perguntou a única coisa que importava:
—E você vai embora?
Diego negou veementemente, contendo as lágrimas.
—Não. Eu não vou embora. Prometo. Vou ficar aqui. Se você me deixar.
Renata olhou para a mãe. Mariana assentiu com a cabeça, chorando em silêncio.
E Renata, com a lógica simples que salva o mundo, abriu os braços.
—Então… venha.
Diego a abraçou como se toda a sua vida lhe tivesse sido devolvida de uma só vez.
Os meses seguintes não foram perfeitos. Foram reais.
Diego viajava para Guadalajara a cada duas semanas. Aprendeu a trançar cabelos assistindo a tutoriais. Foi à sua primeira festa da escola, onde Renata o apresentou com orgulho: “Este é meu pai”. Mariana tinha dias em que o medo voltava como um reflexo. E Diego tinha dias em que a culpa o dominava. Eles fizeram terapia. Estabeleceram limites. Conversaram sobre a mãe de Diego com cuidado e clareza, sem deixar que o passado voltasse a controlá-los.
Mas também havia domingos no parque, filmes de pijama e noites em que Renata adormecia entre as duas com uma paz que Mariana desconhecia.
Um ano depois, no sétimo aniversário de Renata, Diego ajoelhou-se novamente — desta vez diante de Mariana — com a mesma caixinha gasta.
“Não quero que a mentira de outra pessoa seja o fim da nossa história”, disse ela. “Quero escrever o resto com você. Quer casar comigo?”
Mariana olhou para Renata. Renata já estava pulando de um lado para o outro como um gafanhoto.
—Diga sim, mãe! Diga sim!
Mariana riu em meio às lágrimas.
—Sim —ela sussurrou—. Sim.
O casamento foi pequeno, num jardim. Renata carregava flores… e também as alianças, orgulhosa, muito importante, feliz.
Enquanto Mariana observava Diego dançar com sua filha, ela pensou no que Raquel lhe dissera naquela noite: esconder-se não era a solução.
Ele tinha razão.
Porque o amor verdadeiro nem sempre chega de forma tranquila. Às vezes, ele chega em um casamento, com uma fonte de chocolate, uma menininha correndo solta… e dois adultos finalmente obrigados a dizer a verdade.
E essa verdade, embora dolorosa, foi o que finalmente lhes proporcionou o final que todos mereciam.
Uma com toda a família.
Com risadas de verdade.
E com um pai que não ia a lugar nenhum.
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