“Assinei porque você merece exatamente o que vier a seguir.”
Ela abriu a bolsa e retirou um envelope pardo lacrado com o logotipo de um laboratório médico particular.
Colocou-o diretamente sobre o nome do suposto herdeiro.
“Você é obcecado por sangue”, disse ela em voz baixa. “Antes de comemorar… você deveria ler isto.”
O rosto de Hector ficou tenso. Claudia empalideceu.
—Abra—Isabel sussurrou.
“Ou me diga… você tem medo de descobrir a verdade sobre o seu próprio império?”
O piano parou.
O silêncio era absoluto.
Algo estava prestes a destruir tudo.
Hector pegou o envelope com um sorriso forçado, mais por orgulho do que por curiosidade.
“Sempre tão dramática, Isabel”, disse ela, abrindo o documento. “O que um pedaço de papel poderia dizer que já não sabemos?” Ela retirou o relatório e leu a primeira linha.
Então veio o segundo. Ele perdeu a cor do rosto.
— O que é isso? — perguntou Claudia, com a mão nervosamente repousada sobre a barriga. Hector não respondeu. Seus olhos percorreram o documento repetidas vezes, como se as palavras estivessem prestes a mudar.
Resultado conclusivo: infertilidade irreversível. A taça de vinho caiu no chão.
“Isso é impossível…” murmurou Heitor. “Eu tenho duas filhas.” Isabel falou com uma calma cortante como vidro.
“Você os tem porque eu os quis. Usamos um doador. Você assinou… sem ler.” O silêncio foi brutal.
“O diagnóstico é de doze anos atrás”, continuou ela. “No mesmo ano em que os médicos lhe disseram que você nunca poderia ter filhos biológicos.”
Claudia deu um passo para trás.
“Hector… diga-me que isso não é verdade.”
Isabel olhou para ela pela primeira vez.
“Sinto muito”, disse ele. “Mas aquela criança… não é sua.”
Claudia caiu em prantos.
“Ele jurou-me que era fértil…” soluçou. “Prometeu-me uma vida, um nome, um império…”
Heitor tremia.
“Então… tudo isso…?”
Isabel levantou-se lentamente.
“Todo esse império”, disse ele, “foi construído enquanto você perseguia um nome que jamais conseguiria perpetuar.”
Ela tirou outro documento da bolsa e o colocou sobre a mesa.
Enquanto você brincava de rei, eu movia todas as peças.
As ações. As propriedades. O restaurante.
“Agora tudo está em nome de Sofia e Elena.”
Hector tentou falar, mas não conseguiu. “E você”, acrescentou Isabel, “conserve a única coisa que sempre importou para você: o sobrenome.”
Ela se virou para sair.
“Ah… e mais uma coisa”, disse ela sem olhar para ele. “O relatório também confirma que Claudia sabia a verdade.”
Claudia ergueu a cabeça, aterrorizada.
“Você mentiu…” sussurrou Heitor.
Isabel parou à porta.
“Não”, ela corrigiu. “Você mentiu para si mesmo.”
O piano voltou a tocar.
Mas já não era jazz.
Foi o fim de um império construído sobre o ego.
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