Numa terça-feira como qualquer outra, o alarme tocou às 4h30. A cidade estava escura e fria. Adrián tinha comentado que sentia falta dos doces de uma padaria perto do hospital. Disse que a comida do hospital o fazia sentir-se um peso. Pensei que algo quente pudesse animá-lo.
A padaria tinha cheiro de manteiga e açúcar. Por um instante, imaginei que fosse apenas uma mulher comprando o café da manhã para alguém que amava.
Pedi dois pãezinhos de canela, uma caixa de doces simples e um café preto. Dirigi até o hospital com a bolsa no banco do passageiro, imaginando o sorriso dela.
A conversa que mudou tudo.
Uma voluntária me informou que Adrián estava no pátio com outro paciente. Caminhei em direção às portas de vidro, tentando ajeitar o cabelo para parecer menos exausta.
Então eu ouvi.
“Você se adapta”, disse Adrián. “As pessoas acham trágico, mas tem suas vantagens.”
O outro homem riu.
—Sua esposa faz tudo. Isso não te incomoda?
“Por que ela faria isso?”, respondeu Adrian com leveza. “Valeria é confiável. Ela não vai embora. Ela não tem para onde ir.”
Permaneci imóvel.
“Parece que você se saiu bem”, insistiu o homem.
—Claro. Suporte completo, sem custo algum. Sem instalação, sem contas. Apenas paciência e esperança de que continue funcionando como está.
Então ele baixou um pouco a voz.
“Minha herança está segura para meu filho e minha irmã. Sangue é sangue.” Valeria acredita que a lealdade garante a permanência.
Eles riram juntos.
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