O som do martelo batendo na madeira de mogno ecoou pelas paredes do tribunal como um tiro seco. Não era um ruído qualquer: era um ponto final. Um “aqui é o seu limite” que deixou o ar imóvel, pesado, denso de poeira, suor antigo e medo.
No centro daquele enorme tribunal, sentada no banco dos réus, Mariana Hernández parecia uma criança perdida num mundo de adultos com sapatos caros. Ela não usava um terno nem uma blusa bonita. Usava o uniforme que vestira naquela mesma manhã para limpar banheiros: um vestido azul-marinho de tecido barato, com gola branca engomada e — pior de tudo — luvas de borracha amarelas.
Luvas que rangem. Ridículo. Humilhante.
A polícia as havia deixado nela como se fossem uma marca de vergonha, como se a lei precisasse lembrar a todos que Mariana não era uma pessoa: ela era “a empregada”. Agora, aquelas luvas repousavam sobre a madeira fina do banco, silenciosamente gritando o seu lugar no mundo.
Do outro lado, a uma distância que parecia um oceano, ficava Santiago de la Vega.
Impecável. Perfeita. Terno azul feito sob medida, relógio suíço que custava mais do que Mariana jamais ganhara, mandíbula cerrada, olhos fixos à frente. Ele não a olhava. Olhava para o juiz, como quem examina um documento.
Ao lado dele, na primeira fila, sentada como se estivesse em um teatro, Renata Montemayor, sua noiva, sorria com os lábios pintados. Ela brincava com um anel de diamantes, divertida com a tragédia da outra mulher.
“Sra. Mariana Hernández”, disse o juiz gravemente, “seu defensor público não compareceu. O tribunal não pode esperar. A senhora é acusada de furto qualificado, agravado por abuso de confiança. O autor da denúncia, Sr. Santiago de la Vega, apresentou provas convincentes. A senhora compreende a gravidade da situação?”
Mariana ergueu os olhos. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, como se tivesse chorado a noite toda… porque de fato havia chorado. Ela procurou pelo quarto um olhar gentil, um gesto humano. Não encontrou nada.
Renata a observava como quem olha para uma barata: com nojo e divertimento.
—Vossa Excelência… Eu… —Mariana começou, mas sua voz falhou.
“Pense bem nas suas palavras”, interrompeu o promotor, um homem careca com cara de cachorro faminto. “Se você se declarar culpado agora, o Sr. de la Vega pediu uma redução de pena: cinco anos. Se você insistir em ir a julgamento e perder, pedirei dez. E você vai perder.”
Cinco anos. Dez anos.
Mariana engoliu em seco. Pensou nos filhos, os gêmeos de sete anos, Emiliano e Gael, esperando por ela na casa da vizinha, sem entender por que a mãe não havia voltado. Pensou no jantar de feijão que havia deixado na lista. Pensou nas mochilas gastas deles, nas mãozinhas segurando lápis como se fossem espadas.
Se eu lutasse e perdesse, seriam dez anos sem vê-los crescer.
Se ele se render agora… serão “apenas” cinco.
A lógica da pobreza a envolvia como um laço: melhor uma derrota passageira do que uma tortura eterna.
Mariana olhou para Santiago. Ela queria gritar com ele com os olhos:
Olhe para mim. Sou eu. Sou a mulher que preparava seu café exatamente do jeito que você gostava, sem que você precisasse pedir. Sou eu quem cuidava da sua casa como se fosse um templo. Como você pode acreditar que eu sou uma ladra?
Mas Santiago permaneceu imóvel. Nem sequer piscou.
O juiz suspirou impacientemente.
—Como o acusado se declara?
Mariana fechou os olhos. O ar entrou em seus pulmões para formar a palavra que a mataria por dentro.
—Eu… me declaro—
-NÃO!
O grito foi como um relâmpago.
Não veio de Mariana.
Saiu da garganta de uma criança.
As portas dos fundos se abriram com violência, batendo contra a parede, e duas figuras pequenas irromperam correndo pelo corredor central como se o mundo estivesse em chamas.
Emiliano e Gael.
Camisetas vermelhas surradas. Shorts jeans. Joelhos ralados. Olhos enormes, brilhando com lágrimas e fúria.
Um guarda tentou agarrá-los, mas eles escaparam como dois peixes desesperados.
“Mãe, não diga isso!” gritou Gael, o mais impulsivo, correndo em direção ao palco.
Santiago virou a cabeça, irritado com a interrupção… e então viu as crianças.
A irritação desapareceu do rosto dela em um segundo.
Foi como levar um soco no estômago.
As gêmeas eram idênticas. Cabelos castanhos despenteados. E aqueles olhos… olhos cor de avelã com reflexos dourados.
Os mesmos olhos que ele via todas as manhãs no espelho.
O tempo parou.
Emiliano e Gael saltaram a grade, passando pelo promotor que gritava indignado, e chegaram até Mariana. Ela, paralisada, não teve nem tempo de reagir.
Emiliano subiu no banco dos réus e tapou a boca com as suas mãozinhas sujas, selando a confissão que estava prestes a sair.
“Não fale, mãe”, ela soluçou. “Você não fez nada.”
Gael, com o peito arfando pela corrida, virou-se para encarar toda a sala como se fosse um pequeno adulto com um coração enorme.
“Se ela for presa… aquele homem também tem que ir!”
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